Igor Stravinsky: entre guerras


    O blogue Música com História (Igor Stravinsky) tem como principal objectivo o enquadramento histórico da obra L'Histoire du Soldat do compositor russo Igor Stravinsky, no âmbito da disciplina de História da Música (EMCN, docente Helena Lima) e versa os seguintes aspectos:

  • Enquadramento geral da vida e obra de Stravinsky.

  • Caracterização do neoclassicismo a partir da obra de Igor Stravinsky, enquadrado pelos acontecimentos sócio-políticos, artísticos e culturais do período entre guerras.

Como objectivos específicos pretende:

  • Dar a conhecer o contexto histórico da primeira metade do séc. XX, identificando as correntes artísticas e culturais que se desenvolveram até ao início da Segunda-Guerra Mundial.
  • Identificar as distintas fases criativas de Stravinsky.
  • Identificar os principais aspectos que caracterizam o neo-classicismo, contextualizando a obra L'Histoire du Soldat.

Actividades a desenvolver:

  • Leitura de textos; conhecimento de bibliografia básica.

  • Audição / visualização de L'Histoire du Soldat.

  • Audição de excertos de outras obras de Stravinsky e de outros compositores do estilo em análise.

  • Audição /visualização de excertos de obras de Stravinsky relativos às várias fases de criação do compositor.

  • Audição /visualização de excertos de obras de compositores de referência da primeira metade do séc. XX.

  • Realização de trabalhos individuais e/ou em grupo.

  • Desenvolvimento de uma apresentação em grupo para a aula, sobre um aspecto particular da temática abordada a indicar pelo professor (ou proposta pelos alunos).

Avaliação:

Para a avaliação sobre a temática em questão os alunos deverão realizar um dos seguintes trabalhos:

  • Criação de um dicionário sobre as correntes musicais da primeira metade do séc. XX, com a definição de conceitos, resumo das características das correntes, identificação dos principais compositores e obras mais relevantes.
  • Exposição oral relativa a um dos aspectos da obra ou vida e obra de Igor Stravinsky (a acordar entre docente e alunos), em grupo, com recurso a power point. As referências bibliográficas de base serão as mesmas do ponto anterior, sendo indicadas outras obras em função da temática escolhida.

Bibilografia:

os alunos poderão consultar a net, sendo no entanto obrigatória a consulta das seguintes obras (uma de cada grupo):

a) Michael Kennedy, Dicionário Oxford de Música, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994; Ulrich Michels, Atlas de Música I, Lisboa, Gradiva, 2003; Ulrich Michels, Atlas de Música II. Do Barroco à Actualidade, Lisboa, Gradiva, 2007; Paul Griffiths, Enciclopédia de Música do Séc. XX, São Paulo, Martins Fontes, 1995; Stanley Sadie, The New Grove Dictionary of Music and Musicians, London, Macmillan, 1994.

b) Donald Grout, Claude Palisca, História da Música Ocidental, Lisboa, Gradiva, 1994; Paul Griffiths, A Música Moderna. Uma história concisa e ilustrada de Debussy a Boulez, São Paulo, Jorge Zahar, 1980 (também disponível parcialmente na net; ver recursos documentais - Neoclassicismo); Robert Morgan, Twentieth-Century Music: a history of musical style in modern Europe and America, New York, Norton, 1991.

Poderá ainda ser indicada bibliografia mais específica, consoante a temática escolhida.





Três músicos (1921), Pablo Picasso



OS MELHORES TRABALHOS SERÃO PUBLICADOS NO BLOGUE






1918 - 1939: CONTEXTO POLÍTICO E SOCIAL


Bibliografia de apoio: Mourre. Dicionário de História Universal. Lisboa, Círculo de Leitores, 1998

1918-1939 é o espaço temporal que medeia entre dois dos acontecimentos mais marcantes e trágicos do séc. XX: a Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939 -1945).


A Primeira Guerra tem como pretexto directo o assassínio do herdeiro ao trono do Império Austro-Húngaro, Francisco Fernando, por um terrorista sérvio, culminando este acto um período marcado por movimentos nacionalistas eslavos que assolavam o império dos Habsburgos. No entanto, este conflito foi também resultado de rivalidades imperialistas que marcaram a história da Europa desde meados do séc. XIX e que viriam a provocar a oposição entre Aliados (Sérvia, Rússia, França, Bélgica, Inglaterra, Japão, Montenegro, Itália e, mais tarde, Portugal, em 1916 e os Estados Unidos da América, em 1917) e as potências centrais (Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano), alastrando ainda às colónias alemãs em África.


Como saldo contabilizam-se mais de oito milhões de mortos e para cima de vinte milhões de feridos, atingindo democraticamente vencidos e vencedores. Desapareceram os quatro impérios europeus, nomeadamente o dos Hohenzollern (Alemanha), o dos Habsburgos (Áustria-Hungria), o dos Romanov (Rússia) e o dos Otomanos (Túrquia), surgindo novas nações como a Checoslováquia, a Jugoslávia, a Polónia, a Hungria, ... A Europa ficou mergulhada numa profunda crise económica, que se agravou ainda mais a partir de 1929.




O período que decorre entre as duas guerras é tudo menos pacífico, como o demonstra a sangrenta Guerra Civil de Espanha (1936-1938), onde Alemanha e Itália apoiaram Franco contra os republicanos, que reuniam as simpatias de russos, franceses e britânicos. Guernica, de Pablo Picasso, 1937, representa na linguagem cubista o horror dessa guerra, em que os dois blocos mediram forças e a Alemanha nazi testou novas formas e armas de combate, verdadeiro tubo de ensaio do conflito prestes a eclodir.

Guernica (1937) de Pablo Picasso

As duras condições impostas às nações vencidas na Primeira Guerra, aliadas à crise económica generalizada, aos conflitos locais que continuaram a marcar a história dos povos eslavos, à ascensão do nazismo alemão (Hitler), do fascismo italiano (Mussolini) e do imperialismo japonês, originaram um novo conflito que se revelou ainda mais mortífero e avassalador do que o antecedente.

Os fundamentos racistas do nazismo com a proclamação da superioridade da raça ariana, alicerçados no anti-semitismo da segunda metade do séc. XIX e no pan-germanismo, lançaram Hitler numa brutal política expansionista que aniquilou a auto-determinação dos povos eslavos da Europa Central e Oriental e mergulhou o mundo numa profunda crise de valores, configurando-se a Segunda Guerra como um dos períodos mais violentos da história da Humanidade.





Com cerca de 40 milhões de mortos, mais de metade civis, igualmente repartidos entre as nações do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e os Aliados (França, Inglaterra e Estados Unidos), assim como as nações anexadas pela Alemanha, a Segunda Guerra deixou traumas que ainda hoje persistem. Os valores da civilização ocidental foram profundamente abalados pelo genocídio perpretado contra os judeus (mas também contra os ciganos e "degenerados", onde se incluiam deficientes, doentes mentais, comunistas e todos os opositores políticos e ideológicos), pelos horrores dos campos de concentração, as experiências médicas e as torturas, os bombardeamentos em massa sobre civis, as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaqui.


Ver também RECURSOS DOCUMENTAIS. HISTÓRIA DO SÉC. XX



PRIMEIRA METADE DO SÉC. XX: DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO


Mas o início do séc. XX ficou também marcado por avanços tecnológicos e científicos consideráveis. Na primeira metade da centúria destaca-se a generalização da electricidade, a construção em série do automóvel, a descoberta da estrutura do átomo e da teoria quântica, o aperfeiçoamento de meios de comunicação, nomeadamente aéreo (fortemente impulsionado pelas necessidades bélicas), o surgimento do cinema e dos processos de gravação sonora, a descoberta dos antibióticos.
Estes avanços proporcionaram, nos países industrializados, um desenvolvimento tecnológico ímpar de que viria a resultar, já na segunda metade do séc. XX, a invenção do computador, a exploração espacial, e ainda a erradicação de doenças endémicas e epidemias graves.


Estes desenvolvimentos vão ter enormes repercussões na produção artística do séc. XX, explorando as relações entre o homem e a máquina, que na música terá como aspecto mais acabado a música electrónica e a utilização do computador na composição. A pluridade estilística do séc. XX, vai pôr em evidência não só concepções estéticas que reflectem os acontecimentos políticos e sociais, mas também os meios que estão ao dispor dos criadores na sua abordagem a um património cultural cada vez mais lato, ou, melhor dizendo, a uma multitude de patrimónios cuja recolha e preservação só foi possível com o desenvolvimento tecnológico (nomeadamente os processos de gravação).


* Consultar RECURSOS DOCUMENTAIS: HISTÓRIA DO SÉC. XX


PRIMEIRA METADE DO SÉC. XX: MOVIMENTOS ARTÍSTICOS

A primeira metade do séc. XX é fecunda em movimentos artísticos, que vêm quebrar com as regras do séc. XIX, abrindo caminho à modernidade numa multiplicidade de linguagens e estilos. Todos os movimentos, dos musicais aos plásticos, da literatura ao teatro incluindo a nascente sétima arte, o cinema, têm em comum a vontade de desbravar novos caminhos, questinando-se a si próprias e à matéria prima que manipulam. A música "moderna", no sentido do que é actual, nas suas várias correntes, vai explorar novos timbres, harmonias e ritmos, novas estruturas, novos instrumentos (electrónicos mas não só - pensemos no desenvolvimento que a percussão teve no séc. XX).

Os movimentos de vanguarda que caracterizam as expressões artísticas do início do séc. XX vão ser marcados por uma forte reacção ao passado recente, tanto na música como nas artes plásticas.

Na música vai ser abandonada ou redefinida a linguagem tonal e as estruturas formais que lhe estavam associadas, cujo declíneo começou já com o cromatismo wagneriano e que se estendeu pelo pós-romantismo.


As grandes inovações do séc. XX vão então surgir em Paris e Viena como resposta à crise da tonalidade:


  • harmónicas/formais em Claude Debussy (1) (Prélude à l' après-midi d'un faune, 1892-94, Paris, inaugura o modernismo musical, onde a liberdade formal está intrinsecamente ligada à ambiguidade tonal);


  • harmónicas em Arnold Schoenberg (2) (as 3 Peças para Piano, de 1911, Viena, marca em absoluto a início da fase da atonalidade, que já se vinha desenhando praticamente desde o Sexteto de cordas Verklärte Nacht ,op. 4 de 1899);

embora todos estes aspectos estejam presentes e interrelacionados na obra dos três compositores, que constituiram as influências fundamentais para os músicos do séc. XX.


(1) Para referências na net sobre Debussy consultar wikipedia (aconselha-se o artigo em inglês)
(2) Para referências na net sobre Schoenberg consultar
wikipedia (aconselha-se o artigo em inglês)
(3) Para referências na net sobre Stravinsky consultar wikipedia (aconselha-se o artigo em inglês)


Impressionismo/simbolismo, expressionismo, futurismo, dodecafonismo, neoclassicismo, nacionalismo/folclorismo estão entre as principais tendências que surgem na música erudita das primeiras décadas do séc. XX. Assentes na individualidade de cada compositor, herança marcante do romantismo que será ao longo do século ainda mais ampliada, algumas dessas correntes irão culminar na dissociação radical entre o criador e o grande público, apegado a formas de representação artística mais tradicionais e mais facilmente descodificáveis, que começam a ser reproduzidas em massa com a indústria discográica e a rádio, quer no âmbito da música popular ou erudita de séculos passados.


Outra influência que vai marcar tanto compositores europeus (Stravinsky, Krenek, Weil, ...) como norte-americanos (Gershwin, Copland, Bernstein, ...), é o jazz, música popular dos afro-americanos que, em conjunto com os blues, acabará por ter também fortes repercussões no desenvolvimento da música popular urbana nos pós-guerra (quer nos "loucos anos vinte", quer no rock dos anos 50).


Nas artes plásticas o rompimento com a figuração pode-se equiparar ao abandono da tonalidade na música, se quisermos estabelecer um paralelismo com estas expressões artísticas, o qual na época está documentado na relacção Schoenberg/Kandinsky (1907-1910) ou Stravinsky/Picasso (1917). A linha e a cor assumem funções expressivas, desligando-se da necessidade figurativa (que passou a ser assumida pela fotografia), abrindo caminho para o abstracionismo a partir de 1910 com Kandinsky.



Impressionismo, fauvismo, expressionismo, futurismo, cubismo, abstraccionismo, dadaísmo, surrealismo, são as principais correntes plásticas até ao início da Segunda Guerra, que reflectem igualmente os constrangimentos psicológicos da época. Como exemplo, tanto o expressionismo alemão (quer musical quer pictórico) como o cubismo ou o surrealismo, se reflectem por um lado as teorias psicanalistas de Freud, com a livre expressão do inconsciente individual, o sonho, reflectem também a a angústia e o horror colectivo do seu tempo. Reflectem também a modernização da vida trazida pela máquina, como é exemplo do futurismo de Marinetti (pintura) ou Pratella (música), ou ainda o ruidismo de Russolo (música), que abriram as portas às explorações tímbricas de Varése (década de 20 em diante; primeiras obras com fita magnética, 1954), à música concreta de Schaeffer (no final da década de 40 e electrónica na década de 60), ou ao indeterminismo de Cage (a partir da década de 30).









Retrato de Stravinsky por Pablo Picasso (1920)












*Ver RECURSOS DOCUMENTAIS: Artes Plásticas; também pode clicar directamente sobre os conceitos sublinhados.

Igor Stravinsky: percurso artístico




Igor Stravinsky (São Petersburgo,1882 - Nova Iorque, 1971)


in White, Nobel, "Stravinsky, Igor", Sadie (ed), The New Grove Dictionary of Music and Musicians, London , Macmillan, 1980, Vol. 18, pp. 240, tradução livre.
"Compositor russo, naturalizado francês em 1934 e americano em 1945. Percurso de vida multifacetado, tendo a sua música apresentado igualmente várias transformações, muitas vezes à frente do seu próprio tempo mas sempre detentora de enorme consistência. Entre 1882 e 1910, manteve-se na Rússia, onde absorveu influências dos seus compatriotas [marcadamente influenciado por Mussorgsky e Rimsky-Korsakov, de quem foi aluno]. Os anos entre 1910-1914 marcam o início da sua carreira internacional, em que compôs para os Ballets Russos de Diaghilev, em Paris, estreando Pássaro de Fogo, Petrushka e A Sagração da Primavera. Tem residência na Suiça, entre os anos de 1914-1920, exilando-se definitivamente após a Revolução Russa 1917, continuando no entanto ligado à terra natal através das suas obras. O período compreendido entre 1920 e 1939, passado em França, corresponde à composição de obras ao estilo neoclássico, reactivando os estilos e géneros musicais do séc. XVIII. Esta tendência persiste nos primeiros anos da sua vida nos Estados Unidos (1939-1952), dando progressivamente lugar, dentro de uma visão muito pessoal, à utilização de técnicas seriais."

Bibliografia de base: Michael Kennedy (ed), Dicionário Oxford de Música, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, pp. 702-703; Stanley Sadie, The New Grove Dictionary of Music and Musicians, London , Macmillan, 1980, Vol. 18, pp. 240-265.


Filho de músicos (o pai era o baixo principal da Ópera de São Petersburgo), teve uma sólida formação humanística, ingressando na Universidade de Direito em 1901 mas que abandonou em favor da música.
Da sua formação inicial recebeu uma profunda influência dos compositores do Grupo dos Cinco, nomeadamente Mussorgsky e Rimsky-Korsakov. Começou a Primeira Sinfonia em 1905 assim como a Sonata para Piano.

Quando da primeira audição das suas peças para orquestra Fogo de Artífício e Scherzo na ópera (1909), Diaghilev, que tinha por essa altura formado os celebrados Ballets Russos em Paris, convidou-o para compor a música para o bailado sobre a lenda do Pássaro de Fogo (1911), que lhe trouxe um enorme sucesso.

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Igor Stravinsky dirigindo a Orquestra Nacional da Nova Zelândia (1961) no final de O Pássaro de Fogo. O excerto inclui ainda a mesma orquestra em 2006, dirigida por Susan Maelki.

Seguiram-se Petruschka (1911) e A Sagração da Primavera (1913), ainda com Diaghilev, sendo a última obra, A Sagração, recebida com enorme escândalo, não só pelas audácias da composição mas também pelo cenário e a própria coreografia, da autoria de Nijinski. Evocando as lendas pagãs russas sobre a natureza e a fertilidade, Stravinsky utiliza a orquestra como um grande instrumento de percussão, em que o ritmo poderoso e arrebatador conduz a estrutura da obra, sobrepondo-se à harmonia. O carácter primitivo do ritmo, organizado em células de uma a seis figuras, a aniquilação da barra de compasso, o tempo marcado pela duração individual da colcheia ou semi-colcheia, as síncopas, a irregularidade métrica, associado a uma energia poderosa, captaram a atenção dos compositores seus coetâneos, passando a ser visto como um dos líderes da vanguarda musical.

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Pierre Boulez dirigindo a London Simphony Orchestra n' A Sagração da Primavera (excerto da 1ª parte, "A adoração da Terra").

A produção musical de Stravinsky é normalmente dividida em três fases.

A primeira, conhecida como Período Russo (até 1920), integra, para além das obras acima citadas, a ópera O Rouxinol (1914), Renard (1916), Les Noces (As Bodas, cenas coreográficas russas com textos de Ramuz, 1914-23).
Características marcantes:
  • influências da música sacra ortodoxa e do folclore russo;

  • complexidade rítmica;

  • harmonia tonal livre;

  • formas baseadas na variação, repetição, fragmentação, mosaico, colagem, citação;

  • instrumentação e orquestração coloridas.
L' Histoire du Soldat (1918), comummente integrada nesta fase, resulta de um trabalho sobre um texto de C. F. Ramuz e é uma obra de charneira entre o Período Russo e o Neoclassicismo. Baseada num conto tradicional russo, de inspiração faustiana, apresenta marcas nítidas desta primeira fase, tal como os ostinatos rítmicos, um certo modalismo e exotismo melódico. Mas aponta também claramente qual o caminho a ser seguido por Stravinsky na sua segunda fase (Ver Stravinsky:1918-1939).


O segundo período decorre de 1920 a 1950 e é designado de Período Neoclássico. Stravinsky vai utilizar:
  • temas de compositores do passado (Pergolesi, Mozart, Gluck, Gounod, entre outros);

  • géneros e estilos do séc. XVIII;

  • ritmos da música popular (jazz, tango, valsa, etc.);

  • melodias quebradas por sons dispersos;

  • combinações timbricas inusitadas.

Obras deste período: Sinfonia para Instrumentos de Sopro (1920), Pulcinella (1920), Oedipus Rex (1927, opera-oratória com texto de Jean Cocteau), Apollon Musagètte (1928, bailado para Balanchine), SInfonia dos salmos (1930); Jeu de Cartes (1936), Ebony Concerto para clarinete e jazz band (1945 ), a ópera The Rake's Progress (1950). É desta fase o encontro com Picasso, nomeadamente no ballet Pulcinella, de novo uma encomenda de Diaghilev, em que o pintor é responsável pela cenografia.









(1 e 3 - Stravinsky; 2 e 4 - Picasso)

O período compreendido entre 1950 a 1971 é marcado por um acentuado interesse pelo serialismo, cruzado com elementos medievais e renascentistas assim como elementos oriundos do seu próprio passado musical. Particularmente atraído por Anton Webern (recomenda-se o artigo em inglês), as suas obras reflectem a influência deste compositor da Segunda Escola de Viena, nomeadamente na economia de meios e concentração expressiva de que são exemplo. A sua primeira obra serial é a Cantata (1952), a que se seguem Canticum sacrum (1956), Movements piano e orquestra (1959), Elegia para JFK (1964), Requiem Canticles (1965), entre outras.



Ensaista notável, os seus escritos traçam um panorama da arte do séc. XX, tal como a sua obra, extremamente pessoal, abarcando todas as variedades estilísticas do seu tempo. O contacto com outras grandes figuras da cultura do séc. XX (Diaghilev, Nijinsky, Cocteau, Picasso, Baskt, Foukine, Balanchine, entre outros) reflecte o seu carácter cosmopolita e de uma curiosidade insaciável.

Stravinsky : 1918 -1939

Nas vésperas da I Grande Guerra Stravinsky encontra-se envolvido no projecto de Les Noces (As Bodas): pretende escrever uma obra baseada nos contos russos sobre o casamento, realizando no Verão de 1914 uma viagem à biblioteca da sua casa em Ustilug (Rússia), em busca de fontes documentais. Desde 1910 que reside fundamentalmente entre Paris e Suiça, sendo reconhecido como o mais importante compositor russo da nova geração desde o sucesso com Pássaro de Fogo, estando o seu destino fortemente ligado ao dos Ballets Russos. No entanto, a Guerra virá perturbar este estado de coisas. A actividade com os Ballets fica comprometida, fixando Stravinsky residência na Suíça, que se converte em terra de exílio, sobretudo após a Revolução Russa. Les Noces terá então um largo período de gestação, ficando a instrumentação pronta somente em 1923, altura em que é estreada em Lausanne.

Neste período de tempo, Stravinsky, graças à neutralidade suiça, efectua algumas viagens ao estrangeiro e recebe visitas, nomeadamente de Diaghilev de partida para os Estados Unidos onde, com Ansermet responsável pela orquestra, maestro suiço amigo de Stravinsky, irá propor apresentação da sua companhia no Metropolitan Opera House. Antes de partir, Ansermet introduz Stravinsky a um conhecido escritor suiço, Charles F. Ramuz, conhecimento que terá como frutos o texto de L' Histoire du Soldat.

Entre 1915 e 1918, Stravinsky irá encontar de novo Diaghilev, dirigindo pela primeira vez uma apresentação de O Pássaro de Fogo em Genéve e Paris (1915), por ocasião de um concerto de beneficiência para a Cruz Vermelha; é a sua estreia como maestro. Após o regresso dos Ballets dos Estados Unidos, Stravinsky voltará a reger, nomeadamente em Madrid e em Roma.

A composição de L' Histoire du Soldat surge por proposta de Ramuz. No iníco de 1918 a situação mundial é muito grave. Ramuz tem então a ideia de criar uma pequena peça para ser narrada e dançada, com um pequeno efectivo instrumental, que permitisse a realização de apresentações simples, com poucos meios. A 28 de Setembro, em Lausanne, sob a regência de Ansermet, estreia-se L' Histoire, terminada que era já a guerra.

A peça envolve um narrador e três personagens (o Soldado, o Diabo e a Princessa, personagem que não fala) mais um septeto instrumental formado por um par de madeiras, metais e cordas, integrando os registos agudos e grave de cada família (clarinete e fagote, corneta de pistons e trombone, violino e contrabaixo) e bateria. A história, influenciada por contos russos que Stravinsky havia transmitido a Ramuz, põe em cena um pacto do Soldado com o Diabo. O soldado acede a dar o seu violino a troco de um livro que prevê o futuro e dá riqueza. No final, o soldado acaba por perder a alma. É, no fundo, uma parábola sobre o mercantilismo.


A música, fornecendo interlúdios e danças para a peça, é de uma enorme heterogeneidade, remetendo para um espaço muito mais amplo que as peças do período russo, mais ancoradas no material popular nacional: marcha militar, danças populares como o tango, a valsa, o ragtime, o passodoble espanhol (na "Marche royale"), andamento miniatural de concerto, coral luterano - o clímax da obra, repleto de "notas erradas" (apogiaturas não resolvidas ou resolvidas fora de tempo, que lhe conferem uma estranheza que remete indubitavelmente para a ironia e o sarcasmo). Apesar da instrumentação reduzida, nada nesta peça remete para a música de câmara nem para qualquer género composto até à época, podendo-se enquadrar dentro do teatro musical avant la lettre.

Na versão original, datada de 1918, L' Histoire apresenta duas partes:

Primeira Parte:

Marcha do soldado

Música à beira do ribeiro (1)
Música à beira do ribeiro (2)
Música à beira do ribeiro (3)

Segunda Parte:

A Marcha do Soldado

A Marcha Real

O Pequeno Concerto

Tango

Valsa

Ragtime

A Dança do Diabo Pequeno Coral

A Canção do Diabo

Grande Coral

A Marcha Triunfal do Diabo

Existem outras duas versões, uma Suíte de Concerto datada igualmente de 1918, que conserva 9 das peças originais, mantendo a instrumentação original e uma Suíte de câmara, para Violino, clarinete e piano, de 1919, com 5 peças.

A Suíte de Concerto da História do Soldado apresenta a seguinte estrutura:

A marcha do Soldado

Pequenas melodias à beira do ribeiro
Pastoral
Pequeno Concerto
Grande Coral
A marcha triunfal do Diabo


A heterogeneidade é então uma das marcas fundamentais desta obra, desde as influências dos vários tipos de música popular presente (sendo que o contacto de Stravinsky com o jazz era muito recente, proporcionado por Ansermet que tinha trazido umas partituras dos Estados Unidos), às diversas combinações instrumentais, à sobreposição de ostinatos e tonalidades.

Terminada a guerra, Stravinsky fixa-se de novo em França, em 1920, dando início a uma nova fase de composição, o Neoclassicismo. Por Neoclassicismo entende-se um retorno à música do passado, particularmente à música do séc. XVII (neo-barroco) e XVIII, nomeadamente através dos modelos formais e das estruturas melódicas e rítmicas, não como imitação ou recriação mas antes na criação de novos modelos a partir de referências passadas. O Neoclassicismo surge como uma reacção ao carácter exacerbadamente emocional da música do séc. XIX, procurando modelos mais racionais nos períodos clássicos e barroco.


As obras de Stravinsky entre 1920 e 1952 fazem uma revisitação destes períodos, aos quais junta as influências da música popular como o jazz, o ragtime e ainda de compositores do séc. XIX. Pulcinella (1920), um bailado cujos cenários e guarda roupas são da autoria de Picasso, revisita a música de Pergolesi, tendo o tema sido proposto por Diaghilev, cujo enredo se enraiza na commedia dell' arte.

videoPulcinella


Outras obras importantes deste período foram já referidas em "Stravinsky: percurso artístico". Compositores coetâneos que vão igualmente abraçar este estilo: Bela Bartók (1881-1945), Sergei Prokofiev (1891-1953), Paul Hindemith (1895-1963), Les Six entre outros.

Uma chamada de atenção para L' Histoire du Soldat em relação ao neoclassicismo. Tendo ainda várias características das obras do período russo (características que também encontraremos em obras posteriores), como os ostinatos obsessivos por exemplo, encontramos já elementos que apontam para o neoclassicismo. Como exemplo, a uitlização de formas do passado (nomeadamente o coral), ou populares como o jazz, o ragtime, o tango, as pré-estabelecidas, como a valsa. É a junção destas características com uma linguagem harmónica e rítmica moderna (os ostinatos rítmicos, as harmonias politonais, a flexibilidade métrica) que actualiza e transforma este passado em algo de novo; esta é também uma característica do neoclassicismo e que está presente na
História do soldado (clique para ver a versão completa de L´Histoire - encenada).